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Nostalgia entre mãe e filho

Faz um exercício mental comigo. Você tem uns 40 anos hoje. Quando era adolescente, lá pelos anos 90, alguém colocava ABBA, Beatles ou Bee Gees no som. Você olhava para aquilo com a cara de quem acabou de encontrar um disco empoeirado no sótão. “Música de velho”, pensava. Aquilo tinha vinte anos, talvez trinta, e parecia vir de outro planeta. Um planeta chato, cafona, distante. Você queria Nirvana, Pearl Jam, Oasis. Você queria o seu tempo.

Agora vem o soco no estômago: para um adolescente de hoje, o seu Nirvana tem a mesma idade que o ABBA tinha para você. O Guns N’ Roses de “November Rain” está mais longe no tempo do que o ABBA de “Dancing Queen” estava de você quando você tinha quinze anos. Matematicamente, a distância é a mesma. Emocionalmente, porém, você jura que foi ontem. Você ouve “Sweet Child O’ Mine” e sente que aquilo ainda é novo, vibrante, relevante. Para o garoto de dezesseis anos que passa por você na rua, aquilo é exatamente o que o ABBA era para você: uma velharia incompreensível que não faz o menor sentido.

Essa conta simples e brutal é o ponto de partida para entendermos uma das armadilhas mais sutis da vida adulta: a ilusão de que o nosso tempo era melhor. Não era. Era apenas nosso. E essa diferença muda tudo.

A trava temporal: quando o tempo congela dentro de nós

Existe um fenômeno fascinante que a psicologia comportamental chama de “pico de reminiscência”. É o período da vida em que formamos nossas memórias mais vívidas e emocionalmente carregadas: geralmente entre os dez e os trinta anos, com o auge na adolescência e no início da vida adulta. É nessa janela que você beija pela primeira vez, tira a carteira de motorista, faz amizades intensas, sente dores agudas de rejeição, descobre quem é. Tudo parece maior, mais importante, definitivo.

A música que tocava nesse período não é só música. É uma âncora sensorial que te leva de volta para aquele momento em que você estava vivo de um jeito que hoje parece impossível de replicar. Quando você ouve “1979” do Smashing Pumpkins, não está só ouvindo uma canção. Está sentindo o cheiro do quarto da adolescência, o gosto da primeira cerveja, a sensação de liberdade ao sair de casa sem dar satisfação. A música se torna um portal. E por isso, para você, ela nunca envelhece.

Mas aqui está o problema: esse mecanismo é universal. Cada geração passa por ele. Os seus pais sentiram isso com a Jovem Guarda, com os Beatles, com o rock dos anos 60. Você sentiu com o grunge, o rock alternativo, o pop dos anos 90. Os adolescentes de hoje vão sentir isso com o trap, o funk, o pop coreano. O erro não está em sentir. O erro está em achar que só a nossa experiência foi legítima, que só a nossa época teve alma, que só a nossa trilha sonora merecia existir.

A ilusão da era de ouro: editando o passado com filtro nostálgico

Você já reparou como a frase “no meu tempo era melhor” aparece em todas as gerações? Seus avós disseram isso. Seus pais disseram isso. Você está dizendo isso. Seus filhos vão dizer isso. É um padrão tão previsível que deveria nos alertar: talvez o problema não esteja na qualidade do tempo, mas na nossa percepção dele.

A verdade inconveniente é esta: o seu tempo não era melhor. Ele era apenas o tempo em que você era jovem, tinha menos dores nas costas, menos boletos no final do mês e mais testosterona ou estrogênio circulando nas veias. A vida parecia cheia de possibilidades porque você ainda não tinha vivido o suficiente para conhecer suas limitações. Você ainda não tinha perdido pessoas, não tinha visto planos desmoronarem, não sabia que a maioria das promessas da juventude não se cumpre.

A nostalgia é uma editora desonesta. Ela pega o passado e remove tudo que era chato, doloroso, angustiante. Você lembra da liberdade de não ter responsabilidades, mas esquece o tédio mortal de domingos sem internet banda larga, a solidão de não conseguir falar com quem você gostava porque não existia WhatsApp, a ansiedade de esperar uma semana inteira para ver o próximo episódio da sua série favorita. Você lembra da música boa, mas esquece que tinha que ouvir o álbum inteiro porque não dava para pular faixa no toca-fitas. Você lembra dos amigos, mas esquece das brigas idiotas, das fofocas cruéis, da pressão social sufocante de ter que ser aceito num grupo pequeno e fechado.

O passado parece melhor porque você já sabe o final da história. Você sobreviveu. As feridas cicatrizaram. Os constrangimentos viraram anedotas. Mas na época, você sofria tanto quanto sofre hoje. Só que de jeitos diferentes.

Nostalgia entre pai e filhaO preço da rigidez: quando você se torna o “velho chato”

Tem uma piada que circula na internet: “Envelhecer é fácil. O difícil é não virar a pessoa que reclama do volume da música dos vizinhos”. É engraçado porque é verdade. A gente passa a vida inteira prometendo que não vai ser como os adultos que nos rodeavam. Vamos ser diferentes, abertos, conectados com o novo. E então, quase sem perceber, começamos a dizer frases como “essa música de hoje não tem letra”, “antigamente os filmes eram melhores”, “ninguém mais sabe se vestir direito”.

Quando você diz que “a música de hoje é lixo”, você está fazendo exatamente o que seus pais fizeram quando disseram que o seu rock era barulho sem sentido. Você está fechando a porta para o novo porque o novo não fala com você. E não fala porque você não tem mais quinze anos. Simples assim.

O novo sempre parece estranho, caótico, sem valor emocional. Porque ele ainda não é seu. Ele pertence a quem está vivendo agora, a quem está formando as memórias que, daqui a vinte anos, serão intocáveis. O trap pode soar repetitivo e sem graça para você hoje, mas para um adolescente de 2024, aquela batida é a trilha sonora do primeiro beijo, da primeira festa, da primeira desilusão amorosa. Daqui a vinte anos, ele vai ouvir aquilo e chorar de saudade. E você, se estiver vivo, vai continuar achando que é lixo. Porque não é sobre qualidade. É sobre pertencimento.

O problema de morar no passado é que você perde a conexão com o presente. Você para de entender seus filhos, seus sobrinhos, os colegas mais jovens. Você vira aquela pessoa que só fala do que “costumava ser”, que só frequenta lugares que “eram bons antigamente”, que só consome cultura feita há vinte, trinta anos. Você envelhece não porque seu corpo envelhece, mas porque sua mente se recusa a aceitar que o mundo continuou andando sem pedir sua autorização.

Entre a memória e a prisão: aprender a visitar, não a morar

Vou ser direto: não tem nada de errado em amar a música da sua época. É legítimo, é seu direito, é parte do que te constitui. O problema não é amar o Guns N’ Roses ou o Michael Jackson. O problema é achar que eles precisam ser eternamente superiores a tudo que veio depois. O problema é transformar seu gosto numa fortaleza e atirar pedras em quem ousa gostar de coisas diferentes.

Existe uma diferença enorme entre visitar o passado e morar nele. Visitar é saudável. É reconfortante. É necessário. Você precisa desses portais, dessas músicas que te levam de volta para quem você era. Elas te lembram de onde você veio, do que você viveu, do que te formou. Mas morar lá, recusar tudo que veio depois, transformar sua identidade num museu intocável – isso não é amor pelo passado. É medo do futuro.

Tem uma frase de um psicólogo comportamental que me marcou: “A rigidez mental é o primeiro sintoma do envelhecimento psicológico”. Não é sobre idade cronológica. É sobre abertura. É sobre curiosidade. É sobre aceitar que o mundo não parou quando você deixou de ser jovem, e que isso não é uma ofensa pessoal. É só a vida acontecendo.

A maturidade real não está em defender que “antigamente era melhor”. Está em conseguir dizer: “Antigamente era nosso. E foi incrível. Mas o tempo de hoje também é legítimo. Só que de um jeito que eu não preciso mais entender completamente”.

Honrar o passado sem sequestrar o presente

Você não precisa gostar de trap. Você não precisa fingir que entende o TikTok. Você não precisa forçar uma barra para parecer “jovem” e “antenado”. Isso seria tão patético quanto negar completamente o novo. Maturidade não é sobre abandonar suas referências. É sobre não transformá-las em dogma.

O convite que eu te faço é este: deixe a porta entreaberta. Quando seu filho ou sobrinho colocar aquela música que te soa estranha, não desdenhe imediatamente. Pergunte por que ele gosta. Tente entender o que aquilo representa para ele. Você não vai necessariamente se conectar, e tudo bem. Mas você vai aprender que o mundo continua fazendo sentido, só que de formas que você não imaginou. E isso é bonito. Isso é sinal de que a vida não acabou quando você fez trinta, quarenta, cinquenta anos.

Recentemente, vi uma entrevista com um músico veterano que tocou nos anos 70. Alguém perguntou o que ele achava da música atual. Ele respondeu algo como: “Não é para mim. Mas também não precisa ser. Eu tive o meu tempo. Agora é a vez deles. E espero que eles aproveitem tanto quanto eu aproveitei o meu”. Achei aquilo lindo. Porque é exatamente isso: generosidade. Reconhecer que o mundo não gira em torno da sua nostalgia.

Honrar o passado não significa negar o futuro. Significa entender que você teve o privilégio de viver uma época única, e que isso basta. Você não precisa que ela seja eternamente a melhor. Ela foi a sua. E isso já é tudo.

Então, da próxima vez que você se pegar dizendo “no meu tempo era melhor”, respire fundo. Corrija mentalmente: “No meu tempo era meu. E foi suficiente”. Talvez isso te liberte para viver o presente sem ficar o tempo todo olhando para trás. Não para esquecer quem você foi. Mas para permitir que você continue sendo, em vez de apenas ter sido.

Porque o maior risco da nostalgia não é ela te prender ao passado. É ela te impedir de ter novos passados dignos de nostalgia. E aí, meu amigo, você realmente envelhece.

 

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